A espera

(conto publicado em 2023)

Sentado aqui, neste banco debaixo deste pé de tamarindo, na porta de casa observando a rua, seu Olavo (que há muitos anos é meu dono e amigo), aguarda pacientemente a chegada dele. Mesmo com o calor de rachar mamonas, hoje faz bom tempo e, por isso, eu permaneço deitada no chão frio de terra batida debaixo do tamarindeiro e respirando o hálito quente da manhã, regozijando o fato de que tudo parece estar tão bem. A rua em que nós aguardamos a chegada dele é calma e sem carros, ou seja, sem grandes novidades. Ao longe, na outra esquina, os meninos-homens brincam entre si e com Trovão, meu colega-amigo. Sua pelagem preta e longa é ótima para se camuflar a noite, mas é terrivelmente quente neste cerrado, nestes tempos de estiagem. Diferentemente da minha pelagem curta (que é branco-amarelada, fazendo jus ao nome que me deram, Batata), meu amigo Trovão sofre com sua pelagem de longa qual carneiro, cheia de rabujos, carrapichos, carrapatos… e abandono. Por isso, completamente diferente de mim, ele tem a aparência vagabunda de um cão exausto, sujo, esquecido e sedento.

As crianças? As crianças, ao redor dele, brincam como se estivessem de férias. Como se não tivessem que se aprontar, almoçar e ir para a escola daqui a pouquinho. Seu Olavo, imóvel, parece refletir longe, muito longe, olhando para os meninos-homens. É como se não estivesse aqui comigo, mas lá, com o filho, onde quer que ele esteja. Jonas, meu garoto-homem preferido no mundo, estudou numa faculdade elegante e, agora, está de viagem pelo continente europeu num tal de intercâmbio. Apesar das cartas mensais – toda primeira semana útil do mês –, a gente se sente um pouco abandonada, tal como Trovão. Seu Olavo? Bem, ele finge, dizendo para si mesmo em voz alta, que tudo está bem, como se tivesse tentando se convencer do que diz. Tudo vai bem, obrigado! Contudo, como estas coisas não se esconde de uma mascote vivida como eu, quando eu olho em seus olhos antigos, eu sei o que ele pensa só na falta do garoto, pois também penso eu nele e sente a falta dele, assim como eu. Que coisa incômoda, pesada e espaçosa é esta chamada saudade que os humanos acreditam que somente sua raça é digna portadora!

O almoço não demora a ficar pronto. Com meu olfato eu sinto o cheiro de arroz sendo cozido na cozinha lá dentro; de feijão no fogo, de carne de frango sendo cozida ao molho bem temperado e, talvez até salgado demais. Marta e Maria, neta e sobrinha de seu Olavo, são nossas merendeiras diárias. Ali, na casa da vizinha da frente, as roupas penduradas no varal, saudando a brisa morna, bailando para o sol de raios fúlgidos, tal como bandeiras de países estranhos e longínquos. Onde será que ele estará agora?

Na rua onde eu moro (e onde eu sou a dona legítima deste quarteirão – e o pobre Trovão sabe disso), as casas são construídas quase que coladas umas às outras. As portas todas voltadas para a rua calma. Vizinhos quase dividindo a casa com a gente. Parede e meia, feitas de tijolos de barro, cor de canela; outras, caiadas. Todas contrastando entre si, entre constrangidas e orgulhosas, em harmoniosa desarmonia, como que imitando, vagamente, um tabuleiro disforme de xadrez.  Ninguém perde. Ninguém ganha. E, todo mundo, todas as casas, todas juntas juntinhas, contribuem para deixar esta rua, meu domínio, com uma aparência calma, interiorana e bucólica que sempre me encantou e me fez tão bem…

Se eu não fugi até hoje e fui desbravar o mundo em meu próprio intercâmbio canino, o motivo está aqui: sou a rainha do meu próprio tabuleiro.

Uma vizinha de frente sai à rua para chamar os dois filhos, que, mesmo chateados por ter que abandonar o pique, procuram obedecer ao chamado da mãe. Ter vizinhos tão próximos é bom pela companhia uns dos outros, mas é ruim pela quase inevitável intromissão na vida privada de todo mundo. Todo mundo é meio parente de todo mundo nesta rua.

E este leve e morno vento matinal que vem soprando, enche meus pulmões já cansados destes ares que parecem ter percorrido o mundo inteiro. Às vezes eu posso jurar que sinto o cheiro de brisa marinha com toque floral. Deitada ao pé de meu dono e amigo, eu descanso observando a rua e sentindo a brisa entre minhas orelhas…

. E opa! Sim! Sinto o cheiro de queijo sendo retirado da geladeira velha e fria e sendo fatiado sobre a mesa! Ainda tem o cheiro fresco café vaporoso no ar. Aí vem o café com queijo fresco da fazenda do seu Firmino. Queijo de leite de vaca para o nosso deleite. Um pequeno almoço antes do grande almoço, de fato.  Sinto o aroma de queijo feito a pouco menos de uma semana, vinda de uma vaca malhada, mãe de um bezerro mamão. O queijo vem servido num prato esmaltado de metal, que projeta o cheiro e esparrama o sabor. Minha boca saliva, meu corpo se contorce. Queijo, sombra, brisa, xadrez e bandeiras. O que mais deseja uma cadela vivida como eu?

É menina Maria que traz o queijo no prato de metal esmaltado e o café numa xícara velha de porcelana, herança da finada mãe de seu Olavo. Queijo com café é o desjejum favorito da família. Além disso, para um idoso como seu Olavo, uma fatia de queijo fresco é tudo que seus idosos dentes – cacos de dentes –, aguentam triturar. E o velho sempre joga um pedaço do queijo para mim. Mas não antes de, religiosamente, me invocar pelo nome (como se precisasse chamar minha atenção para isso, ora!) “Batata! ”, ele exclama. E então joga direto na minha boca o aquoso pedaço de queijo. E, placidamente, me observa mastigar com toda minha ganância dental…

Agora que fizemos nosso lanche, podemos aguentar até a hora do almoço. E ele, que não chega…! Será que ele vem mesmo, meu Deus? Reparo, que os meninos já desapareceram todos da rua, agora parecendo ainda mais quieta. Seu Olavo já prepara seu pito. No começo de tudo, há mais de dez anos, quando Jonas e os outros eram pequeninos, eu odiava o cheiro daquele pito que ele tanto inspirava e expirava. Hoje, já velha e sem grandes exigências na vida, me sinto indiferente ao seu ritual. Pita o pito no papel. Fuma o fumo enrolado e fabricado por suas mãos calejadas enquanto observa a rua deserta: pois já é a hora de se aprontar e ir para escola e, por isso, os meninos já não brincam mais. Ainda me lembro do meu pequeno Jonas e de quando ele ainda tinha o tamanho e porte físico de uma mão de pilão e brincava comigo nessa mesma rua… Entre todos os filhos do seu Olavo, foi com o franzino Jonas que mais me apeguei, crescendo junto com ele. Quando seu pai e eu o acompanhávamos até a escola, do primeiro ao quarto dia escolar, seu Olavo sempre lhe dizia que ele devia ficar lá e respeitar a professora. “Mas, pai, o senhor vai embora?” Disse o pequeno Jonas, certa vez. “Eu vou. Mas eu volto, entende? Casdequê agora você precisa estudar! Ei! Não chora! Você não está abandonado! É só a escola, seu bobo; e eu sei que você vai gostar! Seus irmãos também estão nas escolas deles, se alembra? Você não quer ficar inteligente, igual eles”?

E como ficou inteligente, o nosso Jonas! Hoje, o caçula dos três, já é engolido pelo mundo em suas andanças. O sol ainda não aponta meio-dia. Vento morno e salino do litoral sopra até o cerradão só para acariciar o tamarindeiro, salpicando a todos nós de folhinhas completamente verdes de saudade.

Debaixo da sombra do pé de tamarindo, algumas andorinhas pousam no chão e parecem conversar entre si, trocando histórias e experiências de viagem, enquanto fazem uma rápida refeição antes de seguir em frente. Como são curiosas estas criaturinhas que fazem intercâmbio no mundo todo; passarinhos mochileiros são as andorinhas! Hipnotizada pela beleza grácil destas criaturinhas, eu fico a observá-las…

A rua continua sem movimento. Será que ele vem mesmo hoje? Ele tem que vir, mas a pergunta é quando?

De repente, outra lufada de vento e os passarinhos já vão embora. “Posa aí! ”, eu queria ter dito aos passarinhos. “Ainda é cedo! Vão agora não! ” Mas já tinham ido. Estavam sem tempo. Curiosas, essas andorinhas: não têm obrigação nenhuma, porém estão sempre com pressa! Lembra, um pouco, os jovens de hoje. Lembra, um pouco, meu filho – quero dizer, o filho do seu Olavo, que não deixará nunca de ser também meu.

Os passarinhos já se foram, mas… Ave Maria! Eu devo ter perdido a noção do tempo, pois, lá dentro as meninas já chamam o seu Olavo para almoçar. Levanto ágil, mas tranquila, enquanto espero que seu Olavo me acompanhe. Como a idade não permite ligeirezas a um velho humano, ele se levanta devagar, pega o seu prato e sua xícara e me chama (como se precisasse me chamar para estas coisas, ora seu Olavo!). “Eu estou sempre atenta a tudo, meu amigo”, eu também queria ter dito. Mas, no fim de tudo, eu sempre obedeço sem protestar. Mesmo sendo uma velha solteirona, eu ainda sou mais rápida que ele: principalmente quando alguém diz “comida”! Nada me tira o apetite. A não ser, talvez, a ansiedade, por estar preocupada que ele não venha hoje. Mas Deus há de querer que ele venha logo!

Todos almoçam primeiro. Eu, depois. Contudo eu vou petiscando do prato de cada um até o momento da minha refeição. Mesmo numa altura maior que minha visão, eu sinto o cheiro do prato de cada um. No prato de vidro de seu Olavo, está posto arroz, feijão, frango cozido, quiabo, abobrinha verde, jiló, salada de alface, tomate, pepino e pimentão e pimenta malagueta para tempero. No prato de Marta, tudo igual, exceto a abobrinha verde e jiló, que ela detesta. Já o de Maria, tudo era igual o prato de Marta, mas numa porção menorzinha. Escuta!  Acaba de me ocorrer que, tirando o arroz e o feijão (que foram comprados no armazém), todo o resto foi plantado, criado, colhido e degolado aqui, no terreiro desta casa, onde seu Olavo mora há vinte anos. Onde seu Olavo se casou com dona Muriel e onde ele criou os filhos: o Jorge, a Josefa e o Jonas. Hoje, só a sua neta Maria, e sua sobrinha Marta, moram aqui e cuidam de nós dois. Maria e Marta… E é assim dia após dia; elas se esforçando para cuidar de dois velhos. Quando Maria pergunta ao avô se a comida está boa, ele só balança a cabeça e resmunga um baixo um “sim”. Mas eu sei, pelo faro e pelo sabor que, há dias, as meninas têm errado a mão. O feijão tem estado ligeiramente salgado para um idoso. Ou dois idosos. Deus as abençoe, rsrs! Mas ninguém reclama, pois, velhinhos como nós, acabam por não ter o direito de reclamar de uma boa ação dos mais jovens. “O que o senhor tem tio?”, perguntou Marta. “O senhor parece estar com a cabeça lá longe… o senhor está pensando nele?” Seu Olavo diz que sim, com outro aceno de cabeça. Não levanta os olhos do prato para nada. Nem ninguém. São muito boas, essas meninas – que ele chama de filhas –, mas não resolvem a carência dos legítimos – que raramente aparecem. Por isso, naquele momento, somente eu tive uma visão privilegiada, aqui embaixo, de suas lágrimas cristalinas teimosas que salgam o feijão ainda mais. Cães têm o dom dado pelos anjos de conhecer, melhor que ninguém, os membros de sua família.  Quer conhecer alguém? Pergunte ao seu cão!

Após comerem, eles juntam os restos do prato, acrescentam um pouco mais de comida morna e me oferecem do mesmo banquete que se deliciaram. E eu me esbaldo deliciosamente! Não sou luxenta e, portanto, eu não me importo com as sobras. Aliás, eu até gosto, pois, eu sinto que sou íntima da família ao comer do que eles também comeram. Seu pão é também meu pão; e, se eu como bem ou mal, eu sei que é o melhor que eles têm para me dar. E não reclamo.

Terminado o almoço, Marta passa um café delicioso do jeito que sua finada mãe lhe ensinara. Enquanto isso eu bebo água fresca recém resgatada direto do profundo poço para mim. Geralmente, em dias como este, seu Olavo e eu tiramos uma sesta após o almoço; ele, deitado na rede; eu, no chão aos seus pés. Quando ele fica no seu quarto, deitado na sua cama, eu faço companhia, observando os peixinhos no aquário. Mas, hoje, estamos ansiosos demais. Desejosos demais da chegada dele. Como ele demora! Eu tenho que parar de me preocupar. Eu queria poder dizer ao seu Olavo, que já bebe seu café com olhar distante pela porta aberta, para não se preocupar também. Com certeza, ele também deve estar almoçando e logo evém.

As meninas recolhiam os pratos, as panelas, as colheres, os garfos e as xicaras para lavar no jirau.

“Deus abençoe vocês duas, minhas filhas! ” Ele diz às meninas, por nós dois. Eu escuto o amém de cada uma, enquanto acompanho seu Olavo até nosso posto. Pena ele não ter quatro pernas, como eu! Às vezes, eu me pergunto se ele tivera uma vida plena como eu. Se já correra alegremente, ou se dormira sem qualquer sombra de preocupação.

Seguimos em silêncio de monges até aquele nosso silencioso ponto de vigília: o banco debaixo do pé de tamarindo. O sol está mais quente. O ar está imóvel. E o céu, bem, o céu continua o mesmo azulíssimo céu. Sem nuvens. Quente demais para ficar dentro de casa. Melancólico demais para estar aqui fora. Calor do cerrado. Morno. Mórbido. Mormacento. Modorrento. Sonolência súbita. O tédio se instala tristonho na sombra do tamarindeiro. Seu Olavo pita o pito de papel. Fogo de fumo que fumega. Olavo viu a uva. Viva o vovô. Nenhuma andorinha na rua. Nenhuma criança no céu. Tudo parece tão imóvel e quieto. Começo a duvidar que haja mesmo alguém morando nestas casas ao meu redor. A quietude se derrama incômoda pela rua. As roupas do varal da casa do vizinho da frente que, mais cedo bailavam ao vento, agora permanecem secas, esturricadas e imóveis. Parece até que o tempo parou. E, se o tempo parou, então quando ele virá? Isso me dá medo, pois, eu sinto que o momento da chegada jamais chegará. E, uma voz aqui dentro me diz: “Ele não vem mais, deixa de ser trouxa! Desiste. Você foi esquecida”. E o asfalto cinza da rua deserta parece comprovar meus pensamentos. Não! Eu devo afastar esta angústia do meu coração. Talvez ele esteja apenas almoçando e decida passar por aqui só depois de também fazer um quilo. Mas a sombra do tamarindeiro, que vai se movendo lentamente para longe de seu Olavo, no banco, e de mim, aos seus pés, denunciam e clamam a nossa solidão e a esperança estúpida: fomos esquecidos. Ah! Seu Olavo, este é o destino de dois velhos, como nós. E depois de ter criado três filhos…

Dois já foram embora: a mais velha morreu há muitos anos. Já o segundo está casado, morando longe e cuidando da própria vida. E o nosso filho caçula, o nosso favorito, parece ter se esquecido de nós! Sinto muito meu caro amigo e dono; nosso coração foi esmigalhado por uma mão de pilão chamada SAUDADE. Que saudade do cão! CAIMMM!  E, meus olhos começam a ficar quentes de lágrimas estúpidas…!

Mesmo tendo a rua deserta diante de si, eu percebo que seu Olavo ainda sentia vergonha das lágrimas quentes de esperança que se iam, uma a uma, dos olhos angustiados de pai. A primeira das lágrimas rola de seu rosto enrugado e caiu no chão seco com barulho surdo e absorvido. Eu, com todo o meu carinho incondicional, subo aos seus joelhos e, como se fosse eu a alma que sofre e precisa tanto de um afago de filho, permito que ele passe a mão na minha pelagem branca amarelada e faça um cafuné entre minhas orelhas grandes de dobradiças. Carinho com efeito analgésico de bálsamo para ambos. Afago na pelagem cor de âmbar que faz bem a ambos. Mais duas lágrimas teimosas rolaram daquele rosto com baque surdo no chão batido. E, por ser de tão boa alma, eu retribuo o afago lambendo sua mão. O tempo ainda permanece intacto. Congelado. Tudo o que sei é que fomos esquecidos. Ele não vem. E nós deveríamos saber disso.

Mas isso é bom para que não fiquemos esperando na porta de casa quem não tem hora para aparecer. Se ele tivesse que aparecer, ele apareceria: batia palmas e nos chamava. E eu, como esperado, avisaria a família de sua chegada e pronto! Tudo resolvido, ora essa…

Então, sem aviso, como quem espera apenas uma deixa, um clímax de uma peça dramática para se apresentar, eis que ele surge virando a esquina, pedalando a magrela. É ele! Ele chegou! Ele chegou! Ele não me esqueceu! Meu coração! Ah! Meu coração! Ah! Alegria. Graças a Deus! O carteiro vinha vindo! E, vindo de longe – qual um mensageiro ou um embaixador de terras estranhas –, vestido de seu habitual amarelo e azul. Seu Olavo demorou um pouco para reconhecê-lo, mas eu já o reconhecia de longe, sentindo seu cheiro à distância, assim que apontou na esquina.

Num gesto, Seu Olavo deixa cair o enésimo pito que enrolava quase sem perceber e ficou na expectativa, aguardando pela aproximação dele. Arnaldo, o carteiro, pedala pesadamente, pendendo a bicicleta para um lado e para o outro. Parecia sedento. Cansado. Distraído. Mas não parava. Nada o parava. E eu rodava entorno do meu rabo e dava piruetas de alegria enquanto via seu Olavo sorrindo feito criança.

Se fosse um dia comum, dias estes que eu sei que ele só vem para entregar faturas e outras coisas inúteis, eu latiria; rosnaria para ele e o perseguiria até os confins dos meus pícaros domínios. Mas hoje não! Hoje é o dia especial de todo mês. O dia da correspondência mais importante e inadiável do mundo! “Nada tema, meu bom homem! ”, eu queria dizer em alta voz. “Não morderei seu calcanhar nem te perseguirei no dia de hoje; sua chegada é bem-vinda”. O carteiro cumprimentou, com um aceno de mão o compadre Olavo, que retribuiu o gesto. Porém, ele não faz qualquer menção de parar. Arnaldo, o carteiro, ainda pedalava, acenando mecanicamente com a mão, como que em sonho. O carteiro não parou. Sua marcha não diminuiu, nem cessou. Ele veio, mas se foi. Foi-se. Foice que mata a esperança. Bem, se ele veio e não parou é porque não há carta alguma; e, se não há carta é porque o nosso garoto já se esquecera de nós!

Seu Olavo e eu acompanhávamos o carteiro com os olhos. Ele continuava a pedalar, já quase alcançando a próxima esquina. E, eu, imóvel, não tinha coragem de olhar para o meu dono, nem ver nele toda a melancolia do mundo que brotava de seus olhos ressequidos. Esperamos juntos. Sofremos juntos. Senti fraquejarem minhas patinhas traseiras, me fazendo cair sentada no chão batido. Em vão, eu farejava o ar tépido. A brisa não era tão salina como eu pensara. Era só imaginação de cão. Meus carrapatos estavam em choque; e, titubeantes, escorregavam do meu couro para o chão. Parasitas paralisados. Até a família de pulgas habitantes, sempre pululantes; agora atônitas. Expectantes. Empulgadas. Emputecidas.

Ele se esquecera de nós, seu Olavo! Tu e eu estamos sós e morreríamos sós, pois nosso último filho se encantara com a Europa e deixou para trás o nosso amor tão simples e humilde. O tamarindeiro, como se fosse um salgueiro-chorão, derramava folhas verdinhas de desgosto. O carteiro já fazia a curva para esquina da rua de cima. Ou quase.

Arnaldo parou a bicicleta de chofre. E fez a curva. Não para rua de cima, mas para trás! Levantei-me mais que depressa. Farejei uma esperança. Meu coração canino palpitava de felicidade; meu corpo inteiro chacoalhava e eu dava pulos no ar, latindo de emoção entre extasiada e histérica. “SIM! Ele está voltando! O carteiro está voltando. Aleluia! ”, eu exclamei, entre latidos. O carteiro pedalou até nós e, freando, pediu desculpas dizendo que se esquecera de entregar nossa carta. Confessou que anda meio esquecido agora que descobriu que vai ser pai. Às vezes se pegava devaneando e esquece até onde está ou o que está fazendo.

Ele abriu a bolsa cheia de cartas e eu pude farejar cada um dos remetentes. Da abertura da bolsa, eu senti rescender o aroma doce de mãos femininas fechando o envelope de uma carta vinda dos EUA; de outra, farejei mãos masculinas que, após comer algum doce, colara um selo em São Paulo; uma terceira carta tinha o aroma salino e os ares alegres do Caribe; na mais enterrada entre muitas, uma mãe mandou um beijo selado a batom num anverso de um cartão postal catarinense… E muitas, muitas outras cartas estavam ali. Ah! Meu coraçãozinho! Quem me dera ser também um carteiro! Quão formosos são, sobre os montes, os pés dos que anunciam as boas novas!

E, deste pequeno lugar cheio de lugares, o mensageiro tirou a nossa carta e entregou ao meu dono. E, eu, a soberana de todo o meu território, dava total carta de aceite às visitas daquele embaixador mensageiro. Bendito seja!

O carteiro se foi, agora leve de mais uma carga, deixando o seu Olavo e a mim com um novo presente. Meu dono fez menção de entrar, de chamar todo mundo para lerem juntos a carta do filho. Entretanto, ele me fitou.  Fitou bem nos meus olhos de cadela fiel.  Nossas faces se encararam. Meus olhos castanhos e os seus, escuros, se admiravam como que em transe. Entre-olharam. Entre-vistaram. Naquele momento, ele pareceu compreender perfeitamente meu mais sincero pedido. Por fim, rasgou a beiradinha do envelope e, adivinhando meus pensamentos, ele, cuidadosamente, abriu a carta e a leu, só para mim e ele só!

E ela dizia:

“Meu querido pai, peço benção. ”

– Deus te abençoe, meu filho. – Ele acrescentou à leitura, com meu abanar de rabo à guisa de aprovação.

“Agora eu estou em Paris. Cheguei aqui há alguns dias, vindo da Espanha. De trem dá para viajar baratinho para qualquer lugar na Europa. Eu queria que o senhor estivesse aqui também, assim como minha prima Marta e minha sobrinha Maria. A torre Eiffel é linda. E dá para ver a cidade toda lá de cima. Eu já fui a alguns museus, vi algumas exposições e fui a um ou dois cafés. E, também, eu conheci alguns mochileiros aventureiros como eu, vindos de diversas partes do mundo. Sempre saio com eles, pois, em grupo dá para economizar um bocado. Não se preocupe comigo, estou me alimentando bem. Paris é cheia de delícias para todos os gostos. Tem até umas comidas um pouco diferentes daí, de casa, mas que são deliciosas quando se tem coragem de experimentar. E a cidade, então? Parece até que estamos absorvendo a História pelos poros. É fantástico imaginar que nestas ruas passaram ditadores, revolucionários, reis, poetas, escritores, pintores, cientistas, pensadores…  Em cada bairro há alguma história esperando para ser conhecida. É encantador! E o bom de tudo isso é que estou praticando, cada vez mais, meu francês. Estou ficando numa espécie de hospedaria para estudantes de intercâmbio. Talvez eu fique aqui umas duas semanas antes de partir para o norte. Acho que vou pra Bruxelas, na Bélgica. Sinto saudades de todos vocês aí, no Brasil, mas, principalmente do senhor, pai, e da minha cadelinha, Batata. Dessa vez eu não pude te enviar nenhuma lembrança, exceto o cartão postal, porém, eu prometo que, em breve, eu vou te enviar alguma coisa legal aqui da França. Não precisa me enviar dinheiro agora, pois, com o que eu tenho comigo, tem me servido bem para me virar muito bem. Sou econômico, o senhor sabe. De qualquer forma, papai, dê-se por bem-aventurado paizinho, pois, tu és o porto seguro, a âncora desta alma vadia, o ponto de partida e de chegada de uma alma cujo percurso é indiferente, mas sua trajetória é muitíssimo longa. Espero que o senhor e todo mundo em casa estejam bem e com saúde. Peço novamente sua benção e desejo que fique com o bom Deus. ”

“Seu filho pródigo, ”

“Jonas. ”

– Deus te abençoe, meu filho, por onde quer que você passe neste mundão de Deus, que Ele te proteja! E eu espero que o vento leve minha benção através do oceano, chegando até você”, disse ele; e eu dei um estrondoso latido à guisa de amém.

Bem – você pode se perguntar, meu caro amigo de confissões –, por que seu Olavo resolveu ler a carta do menino-homem Jonas só para mim primeiro? Ora, porque eu fui eu aquela alma que dividiu com a dele a aflição da espera. Por não ter falhado nem um momento sequer em minha lealdade de tantos anos, ele honrou-me com a leitura da carta do seu filho – o nosso filho – como que ciente do meu desejo.

Então, com toda a velocidade que a idade lhe permitia, ele passou para dentro, ansioso por reler a carta – agora para os humanos:

– Marta! Maria! Corre aqui! Chegou carta do nosso Jonas, lá de Paris!

 

 

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